bolinha de gude

calhamaço do ócio

As pessoas que não se apaixonam

Partirei de um pressuposto: sou jornalista. E dentro da minha profissão admiro muitos. Gosto mais daqueles que andam do meu lado. Claro que a sagacidade de alguns teóricos e outros notáveis me aguçam, mas são aqueles que próximos, alguns amigos, que mais me estimulam. A seu modo, eles fazem o trabalho que a cabeça - e a pauta - lhes sugere. O que eu mais admiro? É que eles não se apaixonam.

Obviamente isso é uma grande besteira, mas a minha leitura sobre eles é que não presente uma paixão por alguém. Isso é tão vivo, tão potente, que olhar a produção de cada um, a postura e a quantidade de informação processada… Não tem como ele ficar apaixonado. Apaixonado, eu me quebro. Choro e distorço até a última lágrima que ameace cair. Mas eles não se apaixonam.

São devotos da música e dos sentimentos, mas não dá para acreditar que eles se apaixonam. Sofro, mas não mais que alguém, sofro igual. Eles parecem não sofrer por esse caco de vidro escondido debaixo da cadeira. De certo, eu não tenho intimidade com a maioria para falar, dos amores. Gostaria muito, mas não é da minha natureza desafiar alguém nesse campo, perguntar de algo tão intimo que eu sou uma muralha para dizer.

Esclarecido isso, continuo com personagens que não amam. Esses são fortes, admiro os muito. Escrevem como alguém que está apaixonado pela música, mas não demonstram amar. Não sei se eu demonstro. Mas eles não demonstram, e como eu vejo beleza nisso. A rede que fazem crescer, o tempo que tomam, muito que fazem. E chega no pouco que amam.

Meus personagens são poucos, mas são muitos. Eu sei que eles devem ter uma criança chorona para cuidar num sábado a noite solitário desses. Porém, continuarão sendo um objeto de admiração do meu eu enfraquecido pelas farpas do mal amado. Do amor que nunca vi encher os olhos de alguém por mim. Das tentativas erradas, dos meus erros, dos meus excessos de vontade, e da maneira como isso me toma tempo. Tempo em que eles estão lá, produzindo, e eu só tento amar.

Escrevo. Mas escrevo na frustração de amar, poucas vezes escrevo como um dever propriamente dito. Sou um grande amante de ninguém. Apaixono me muito, e pouco. Tenho vontades de vida, e fúrias que me levam para longe. Para um lugar que sempre tem espaço para um arrependimento. Escuto a velha música em loop, ensaio uma recaída e vejo que tem gente que não ama. E amam.

O problema é grande, da forma que me faz incapaz de exprimi-lo. Sei que vai acreditar, vale o risco. A dedicação em seu papel de verdade cria belos frutos e apaga antigos fracassos. Isso eu não faço, e acho que fazem. Trago de volta um monte de desconhecidos do limbo que caio. Fujo do clichê, mas a história me persegue. E assim vou até alguém olhar para mim e proclamar a entrada no clube das pessoas que não se apaixonam. Que isso seja uma meia verdade quando acontecer, se um dia acontecer.

Viver com o estigma da solidão, e fazer isso não se intrometer na área é um dever. Fraco sou eu que me apoio nisso para tudo que faço. Ah! Mas que inveja dessas pessoas que não se apaixonam e conseguem viver por outras paixões senão uma mulher. A minha sede vem toda de lá, as minhas frases desencontradas, dificuldades em falar, implicância e nervosismo ocasional. Isso não existe neles, seres que não se apaixonam.

Eu tenho cá para mim que todos nós temos momentos de recaída, mas para o bem do texto, vamos considerar um grupo que não. Que existe alguém capaz de separar paixão da dor e de perder tudo. Quero enfatizar o dom de não se desiludir. Saber usar a vida e seguir bem. Uma personalidade e uma forma. Um dia hei de encontrar a minha.

O cotidiano louco e secreto de cada um esconde esses pecados. São camuflados pela personalidade desejosa da incomodação. A imagem pré moldada de um mundo diferente o faz sentir pior. Acreditar em ídolos passa a ser uma atividade lucrativa.

Misturando lucro, música, pessoas, eu vejo pessoas que não amam. E eu sei que é amar e esconder isso das pessoas, mas nesse caso prefiro ser menos crítico e não supor muito. Aceitar estritamente o que é vendido. Confundo profissionalismo com segredo e assim tenho certeza dessas pessoas. Não se apaixonam.

Vou continuar me ajeitando na cadeira até achar um jeito de amar. Depois aceitar a convivência de todos esses elementos juntos, dessa confusão, da dor de cabeça que me dá agora por não conseguir fechar o texto direito.

Que crime a vida fez de mim nessa lição que não merce respostas. Podia ser eu, do mesmo jeito, dessas pessoas que não se apaixonam e conseguem viver bem, mesmo apaixonados.

Minhas mãos grandes tem dedos tortos, distorço alguma letra do rascunho até a publicação final. Culpa da maldade do amor derramada em mim. Ah, se eu fosse desses que não se apaixonam, seria mais feliz. Escreveria mais de um período sobre a mancha que sumiu em mim.

No instante sóbrio, vejo tudo isso em mim. Paro e descubro que o bom é se apaixonar, mas não deixo recados na secretária eletrônica, o jogo pode perder a graça e terminar antes da hora. Antes do piscar de olhos entre dois desses que não se apaixonam.

Ou seja crise existencial babaca amigos escrever

  1. psicologa-problematica reblogged this from tuliob
  2. tuliob posted this