bolinha de gude

calhamaço do ócio

Pretensão

O martírio do cotidiano. Ideias para fazer uma música seis minutos, mas nunca passava de dois. O botão do gravador estava quase emperrado de tanto “rec” e “stop”. Passava das quatro da manhã, preocupava a carga no aparelinho. Bateria acabando, fim de expediente se aproxima.

As horas que contavam na mídia gravada são aquelas em que ele não conseguia dormir. Falta de sono virou discurso do mundo corporativo workaholic. Gente desesperada, afetada pelo estresse, que não dorme direito. Fé e ciência explicam a tese, mas é regular um artista se sinta ofendido com isso.

Perder a hora pro mundo não é um sacrifício se você quer isso. Trancado num quarto, ele se concentrava em não repetir frases. Evitar as negativas e orações com “que”. Tinha um jeito estranho de pegar a caneta, sempre ferrava ela antes da tinta acabar — isso fez com que progressivamente abandonasse os cadernos. Ficou refém do gravador.

Escrever, por mais sensível que o autor esteja, deixa o julgamento da pessoalidade pra leitura. Gravar é horrível, estranhava a voz e os versos. A calma e a tristeza, seus pesadelos só tinham fim quando deletava os arquivos.

Sentava-se no chão, com a costa apoiada na cama, onde ficava o gravador. Um pouco distante do aparelho, ele media uma voz boa para encaixar na gravação e ideal para que ninguém além quarto ouvisse. Repetia as melhores ideias em três tons. Sem olhar pra cama, esticava o braço a procura do gravador. Apalpado o aparelho, aperta duas vezes o “rec” para iniciar outro bloco. Assim faz para não desistir. Comodismo obriga a fazer muitas coisas, entre elas botar a criatividade para trabalhar.

A prateleira a sua frente era pouco povoada. Uma pilha de xerox do período passado, um maço de cigarro, um isqueiro. Cada música pronta era um cigarro que ele queimava virtualmente. Era possesso pela vontade de fumar, sua resistência acionava a combustão das ideias. Só voz e desespero. “Se eu tragar eu vou melhorar. Se eu tragar eu vou melhorar…”, um mantra caótico e desesperador. Hipnotizado, inabilitava-se de pegar o violão à esquerda. Os acordes são tolos, abafam as ideias. Música vem depois do choque.

Ele inclina a cabeça para cima. “O teto estrelado esconde o céu branco; O céu estrelado esconde o teto branco; O céu branco esconde o teto estrado”. Apreensivo com a monotonia do teto branco, começa a repetir cada vez mais rápido.

Os dentes começam a rangir. Batem um nos outros. O porteiro arremessa o jornal, bate na porta, faz barulho, os dentes continuam a rangir. “O céu continua estrelado, mas não há estrelas no teto branco. Não há teto para quem olha o céu. E o que é melhor ficar debaixo da proteção do teto ou encarar as estrelas do céu?”

Parecia mais nervoso agora, continuou. “Por que fizeram um teto se tem o céu. Se tem um céu, me removam o teto que eu quero ver, se eu posso crescer, se eu vou crescer, se eu vou aguentar”. Agonia sobe a mente e junta ao desespero delicioso da ansiedade, começa a bater o pé na mesma velocidade que range os dentes. “Cedo minha pretensão segue e cega e cria estrelas no teto. O céu vai ficar com inveja do teto. A estrela é a inveja o céu por não ter aonde se esconder, eu não quero me esconder mas não quero ficar sem teto.” A bateria do gravador acaba, dá o bip final, ele para de regular o volume da voz. O rosto é tomado por suor. “O teto não me quer porque EU quero quebrar o TETO. mas não tem teto se eu vou pro CÉU, se eu for pro CÉU, posso parar no teto, TETO é um MURO QUE NÃO TE DEIXA CRESCER QUE NÃO TE QUERO NO ALTO PORQUE VOCÊ NÃO PODE CHEGAR NO CÉU. SE O CÉU TÁ SEMPRE LONGE É PORQUE NÃO TEM TETO, E VOCÊ NÃO PODE CHEGAR NO TETO. E VOCÊ NÃO QUER VIVER SEM TETO, MAS SEMPRE PROCURA UM CÉU.”

Levanta bruscamente, pega a merda do maço de cigarro, amassa e joga pra perto do gravador. Desmaia logo depois. Estirado no chão, de cabeça no ladrilho. O chão é um teto que fica abaixo, tornou-se o céu do chão. Imóvel, grande, inconsciente e utópico.

Ou seja euforia ego chão céu

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