O mar não chega aqui
(Narrativa ambientada ECo para a disciplina “Português II”)
Três da tarde. Não é o sol se pondo que programa a ansiedade dele, ele insiste existe uma sensação de tempo perdido a cada dia que passa. Deitado num dos poucos bancos da Escola de Comunicação, seu individualismo deixa em dúvida se há espaço para mais alguém alí, do seu lado. Aquele, excepcionalmente, foi um dia de encontro marcado sem atrasos. Nem dele, nem dela. Às três horas da tarde os dois se encaravam em frente ao Laguinho (um dos pátios internos do Palácio), ele deitado, ela calma e em pé, com uma preocupação carimbada na sobrancelha.
Quinze minutos antes ele chegara ofegante ao campi da Praia Vermelha. Saltou do ônibus na Rua General Severiano, passou sem olhar para a fachada do hospital (temia ser reconhecido como um doente) e esbarrou numa senhorinha simpática. Ela sentiu a pressa do menino e o deixou ir pegar o sinal da Venceslau Brás fechado. Maldito sinal, outro dia perdeu minutos preciosos da sua vida esperando os carros darem uma trégua. A correria poderia ter acabado no momento em que chegou do outro lado da rua, mas o medo de achar alguma face conhecida no ponto de ônibus aumentou a adrenalina — correr era preciso, não dava para perder tempo.
Uma aglomeração indesejada de pessoas bloqueava a escada de acesso à Escola. Passando pelo labirinto, ele (o apressado), ouviu coisas fúteis. Preferiu ignorar pelo tempo e para não se estressar. Contou alguns segundos perdidos para fugir da multidão, por sorte o corredor estava livre para que ele pudesse correr.
O corredor abrigava uma exposição de fotos sobre cinema. Colocaram uma luz amarela para deixar o local de passagem com cara de “lugar para reflexão”. Ele ignorou os quadros para olhar pra baixo, os azulejos tem um padrão interessante, formam losangos negros na junção. Quando ele passava correndo, parecia uma película de filme se movendo. Com a luz amarela incidente, tudo ficou com um clima mais aprazível para seu diálogo com os azulejos. À medida que corria, uma loucura efêmera e incrível passava por sua cabeça: não via quem estava a frente por olhar o chão, assim como não sabia a próxima cena do filme, assim como não sabia o que ia acontecer dalí a quinze minutos — afinal isso era uma vida.
Se ele estivesse de carro teria que dar a seta para direita. Como não era o caso, virou bruscamente, avistou um banco livre de pessoas e arremessou sua mochila. Na mesma velocidade que antes se pôs a correr, parou e deitou. O casaco serviu como um ótimo travesseiro para horas inesperadas.
E o relógio marcou três horas da tarde. A menina vinha calma pelo corredor, quando percebeu o namorado alí abriu um sorriso bonito. Ela estava de calça jeans e tênis All-Star verde, o enorme casaco da seleção inglesa de futebol escondia a blusa. Não apertou o passo, sabia que tinha chegado na hora, e fez um movimento precedia um abraço apaixonado. Ele não se comoveu e continuou deitado no banco. Em pé, ela perguntou:
- O que houve?
- Esqueci de pegar o café.
- Seu estômago agradece. Agora, se você quer conversar é melhor deixar eu me sentar ao seu lado.
- Tá tão bom assim, você pode ficar em pé. Eu não me incomodo.
- Bonitinho. Se é para ficar em pé, vamos andando pra praia.
- Lá é longe.
- Nem tanto.
- É sim. Preciso de mais argumentos.
- O mar não chega aqui.
- A água de lá é poluida.
- Eu sei, tanto é que a gente nunca mergulha. Mar é diferente de água, a gente vai para olhar. E não dá para olhar daqui.
Na cabeça dele, as ondas começaram a bater. São belas as tardes na praia. Mas o medo, oh não, não é bom. Ele questionou:
- E se acontecer alguma coisa no caminho? Algum atentado? Algo que separe a gente?
- Você deitado desse jeito já faz essa função.
Mensagem recebida. Sentou-se como nos tempos de escola primária. Ela tomou o lugar ao seu lado e o abraçou. Três e cinco no relógio, não rolou beijo de língua essa hora, ele não quis. Ela entendeu e continuou a conversa:
- Garoto bipolar, me manda uma mensagem linda de madrugada e agora está assim. O que houve com a sua felicidade?
- Ela é bipolar também.
- (Risos) Tudo bem, eu gosto de você assim. Com o cabelo grande fica ainda melhor.
- Seu gosto por cabelos é bipolar também.
- Gosto dele grande, muito grande não dá. Vamos, o que você quer falar?
- Já pensou nos quadros da vida?
- Quadros?
- É, as cenas que a gente protagoniza. As escolhidas para passar nos melhores momentos.
- Ahn, sim. Por que a pergunta?
- Sei lá, pensei nisso agora. Queria pensar com você também. Você gosta de pensar, não é? Por isso que eu gosto de você.
- (Solta um suspiro) Quanto amor.
- Pensa comigo sobre uma música do Caetano Veloso?
- Ótimo, qual música?
- “Chuvas de Verão”, de 1969.
Ele tirou o celular do bolso e os fones da mochila. Deu um para ela e ficou com o outro. Procurou a música dentro dos seus arquivos digitais e colocou para tocar. Os primeiros versos: “Podemos ser amigos simplesmente / Coisas do amor nunca mais / Amores do passado, no presente / Repetem velhos temas tão banais / Ressentimentos passam com o vento / São coisas de momento / São chuvas de verão”. Ele parou a música e disse:
- O Caetano continua mais ou menos assim, ‘trazer uma aflição dentro do peito é dar vida a um defeito que se extingue com a razão. Agora eu tenho calma não te desejo mais’. Desculpa por faltar as palavras próprias, mas é isso. Nenhuma onda vai me levar pra longe de ti porque o mar não chega aqui. Preferi dizer logo o que o mundo podia te alertar.
Alguns minutos de silêncio. Ela, com os olhos cheios d’água, olhava para as árvores do Laguinho. Aquele tempo não foi um tempo perdido. Ele ficou aliviado por dizer o que sentia, ela usava para recuperar o fôlego.
- O laguinho não é nem um lago, também não tem onda - ela quebrou o silêncio. Tem mais árvore do que água.
- Não tem água.
- Não tem nada.
Como uma coreografia, os dois levantaram juntos, deram dois passos, e se abraçaram. As pessoas ao redor reclamaram, alí tinha uma fila para o espetáculo de teatro numa sala próxima. A fila anda, e eles estavam tentando colocar uma outra lógica nela. Não ia dar certo, como não deu.