Passagem
Na virada do dia, recolheu as balas guardadas e jogou na mochila. Junto com as outras elas supririam a falta de música para lhe acompanhar na viagem. Computador desligado, mesa limpa com um suspiro que quase derrubou a cadeira. Se levantou e confundiu seu reflexo na tela da televisão desligada com um vulto, não teve medo. Apenas riu e seguiu a sua vida até o próximo ponto.
Dez horas depois de dormir já queria acordar. Sempre cismava em despertar na rotina que não era sua. Quando reconhecia mais de três hábitos ficava atônito. Seu maior conformismo era o medo dele. Prometeu aturar até a virada do dia. O vídeo game estava sem pilhas, o espelho da sala chamou atenção. Pouco tempo se passou para tantas mudanças. Queria ficar quieto agora, mas isso é papo pra amanhã.
E as pessoas na cidade continuam com uma pressa terrível. Ignoram o passeio pelo prazer de viver na ansiedade, e veja só, curtir a sexta feira. Não descobrem que todo dia vai assim, se assim for. Nas drogas o mundo real fica um tanto quanto super estimado. Ele achou interessante andar perto delas e tentar enxergar um pouco a direção para um lar. Faria um corte na vida por alguns gramas de prazer. Não o deram a oportunidade de dizer o que queria. E não tinha muito além de ciúmes. Mastigava as balas moles como se fossem duras, apertava uma mão na outra para aliviar a tensão.
Esbarrava de propósito, mas se fingia de morto. Comprou o livreto de poesia, e jogou fora como um panfleto publicitário. Ninguém vai morrer de desgosto num mundo tão sem sabor. Meteu a mão no bolso procurando cigarros, estariam lá, se ele fumasse. Coça o cabelo e olha pra moça elegante que já foi. Mais dois minutos, mais duas paixões. Ela estava acompanhada de tanta gente que, apostaria, mal se conheciam, mas alí, na calçada, lado a lado. Nessa solidão falsa e sem fim perceptível apenas para quem se perdeu nela.
Ontem alguém acendeu uma vela na Igreja. Gostava da arquitetura, mas as velas sujas são toscas. Se Jesus é movido a cera, os carros também poderiam ser. Esquecia e não acreditava em si.