bolinha de gude

calhamaço do ócio

Ambivalência

- Tá tudo errado nessa questão de ordem mundial. Eu não lembro do que agora, mas está errado e eu não concordo. Não tenho opção diferente a isso, só posso discordar das assertivas impostas pelo modelo de produção atual, que nos submete ao incrível espetáculo da escravização do tempo livre. Esse sofre em nome da produtividade, produtividade de quem? De porra nenhuma, resmungue sozinho e ature suas próprias lamentações como um porco que se joga na lama.

O menor silêncio no vídeo foi o estopim para atirar o fone pela janela e não ouvir mais nada. A tela do monitor continuava com um louco protestando sobre sabe se lá o que, falando de não fazer nada, impor a anarquia do cotidiano. Um fone novo custará caro, mas o prazer de calar a boca de um babaca sempre é maior. Pensava assim o formoso comunicador.

Sem cigarros na mochila, apenas um arrependimento monstro por nunca ter experimentado maconha. Acreditava seriamente que isso o livraria da ansiedade, mas sabe se conseguiria viver sem ela no sangue para trabalhar. 

Andou com a maior calma do mundo pelo corredor do terceiro andar. Pegou o elevador sozinho, aproveitou o espelho para ver se estava tudo em ordem. Tirou o celular do bolso e leu “trinta e três para duas horas”. Bosta. “Nem acredito que li assim, tão fácil arredondar para uma e meia”. 

Esquecera de tomar o remédio das 13 horas. O fez imediatamente sem pensar muito nas consequências, ninguém o ia reprimir-lo dentro de um elevador sozinho. Arremessou três pílulas garganta a baixo como uma dose de cachaça. A porta abriu e ele passou da portaria sem cumprimentar um mísero infeliz. 

Estava calor, e ele, teoricamente, de folga. Bastava tomar a atitude de desaparecer. Pegou o primeiro ônibus pra casa e foi sem medo. Todas as ruelas entre o trabalho e seu lar estavam citiadas de coisa alguma. Não enxergava nada, nada era arremessado pelas janelas naquela segunda feira, duas da tarde. A política de arborização da prefeitura foi uma das boas tacadas, ele admirava isso. O serviço público podia melhorar, os amortecedores do ônibus estavam fudidos. O busão também não respeitava os limites de velocidade. 

A janela o seduziu. Seu pequeno confessionário para um mundo cuja existência era questionada por ele. Bradou contra a sua última gota de suor, porque diabos teria concordado em deixar as crianças na creche, a doação da sua coleção de miniaturas de submarinos, o conselho de seu pai para parar de pintar e maldita convicção de que nada mais presta nesse mundo senão ficar parado. 

O quebra molas da rua não colaborou, e ele bateu com a cabeça na janela. Não morreu, falta de sorte, nem viu como as pessoas ao seu lado reagiram. Voltou a consciência duas horas depois. O médico não tinha cara de médico para ele.

- Seu diagnóstico está errado. Meu sonho acabou.
- Sim, dei óbito.

Por dois segundos ficou enfurecido e se soltou da maca para cair no chão de propósito. O despertar impossível, viveria pelo silêncio e abandonaria a labuta biológica da vida. Felicidade era um liquido podre, não dava para nadar. Ele sabia. Até que a medicação foi controlada, dizem que vive feliz.

Ou seja não é verdade