bolinha de gude

calhamaço do ócio

Prenda

Indicaria ao analista uma rotina estressante. Baixa remuneração e pouco otimismo numa vida movimentada em que isso é assaz necessário para atingir qualquer meta. Bobagem. Não gastava tempo nem dinheiro nas consultas porque, secretamente, sabia que seu vício era dormir pouco. 

A insônia é cruel, indesejada pelas pessoas saudáveis, mas após anos de convivência, ele se deixou encantar pelos charmes da doença. Com o tempo aprendeu como é bonito acompanhar o amanhecer depois de entender a madrugada do dia. Qualquer que fosse a música escolhida para essa hora, chegaria emocionando. Cinco horas da manhã foi desde a adolescência uma hora especial. Chegava em casa por essa hora, era aí que descobria seu prazer secreto.

Naquela fase ele não desconfiava que a levaria para o resto da vida. As turbulências pessoas do gênero são administradas bem quando solteiro, era um problema exclusivo, um diálogo saudável com o marasmo do dia anterior e a acomodação de passar as páginas do jornal sem ler nada. Azar era do domingo, quase inexistente, só tinha a hora do jogo de futebol, o resto servia para dormir e nada mais. 

O último alerta que passou por sua cabeça quando fez a proposta para ela estava longe da mania diurna-insone. O convívio tratou de apresentar bem. O casamento completava 3 meses na virada de sábado para domingo.

- Eu fico incomodada quando você levanta da cama porque não consegue dormir.
- Achei que não reparasse. Vou tentar fazer menos barulho.
- Tente dormir, é bom.
- Estou velho demais para descobrir se isso é verdade ou não. Sono sempre me lembra o cansaço, pausar para ficar cansado depois.

A gesticulação do rosto dele sugeria uma continuação, mas os olhos miravam o relógio, cinco e meia.

- E você, acordou cedo?
- Queria ver com você o dia. Entender essa sua mania.
- Não tem nada. 
- Olha, te conheço bem. E gosto mais de você do que pensa.
- Se soubesse o que eu pensasse não teria levantado essa hora.
- É seu tempo livre de mim?
- É o meu tempo livre do mundo.
- Eu não sou o seu mundo?

Ele riu, ela ficou puta. Foi um superlativo proposital, queria receber um beijo e voltaria para a cama feliz. Mas as risadas pareciam um deboche para ela, que naquele dia acordou cedo sacrificando boas horas de sono para lhe fazer companhia, e ele não deu a mínima. Ainda se incomodou e se atreveu a debochar dela. Se ele olhasse para ela perceberia a ingratidão instalada na sua amada. 

Com os dedos, ele apontava para os lados e pronunciava a ordem em que a luz deveria tomar depois de alguns minutos.

- O sol nasce alí. Cresce para ilumar a calçada, a dona do prédio verde tem inveja e deixa a luz ligada até às 8h. Ela acha que a luz não bate lá, mas chega em todo lugar. As velhinhas da Igreja são as primeiras a subverteram a ordem do deus delas, dá para ver na esquerda elas chegando na capela antiga e acendendo as velas. Nosso vizinho, quando está em casa, sempre anda com uma lanterna para não ligar a lâmpada, mas o feicho de luz é tão grande que chama mais atenção. 
- E você anota tudo.
- Não. A senhora do porteiro é que faz isso. Quando ela tira a marmita dele da bolsa, dá para ver um bloquinho de notas aberto.
- Tem um telescópio no seu olho para ver detalhes assim?
- Imaginação basta. 

Ela pendeu a cabeça pra direita, fechou os olhos e se apoiou nas costas dele.

- Eu prefiro acreditar em você, mas essa brincadeira tem limite. Um dia vai ficar insustentável, e a insônia tem cura. 
- Não é isso, amor. É um exercício. 
- Parece coisa de velho, você já chegou lá?
- Fosse velho reclamaria das costas agora, ? Escuta, escuta, os carros vão sair da garagem daqui a pouco. O amarelo tinha um problema até semana passada, mas o ronco dele melhorou bastante depois de sumir por 3 dias.

A vista da cidade pela janela não é nada bucólica. Só prédios, nenhuma paisagem para olhar, a fauna do lugarejo é uma piada de mal gosto - apenas ratos e ratazanas. Mas ela não esperava ouvir uma pessoa sugerindo escutar o ronco de um motor. 

- Estou encantada pelo ronco dos motores. Parabéns.
- Você não entende nada. 
- Vou marcar o médico.
- Marca, pode ligar agora, ele já deve ter acordado. Quem sabe daqui a três meses eu fique melhor.
- Ah, esquece.
- Por quê?
- Isso ficou chato agora. Você é um chato. 

O dia se consagrava e deixava uma frase. “Você é um chato”. Nem o melhor acorde dos Beatles ficariam melhor. Ser chato nessa hora tinha um outro significado, não dormir à noite deixava esse valor para as primeiras horas do dia, e assim se sacrificava parte da manhã. Ele, como chato, teimoso, renegava a paixão pelo dia pelo um romance pela noite. Gostava mesmo, e isso deixou de ser segredo, era de ver o dia alí na sua frente antes de virar rotina. Sua chatice o impedira de ver o que tanto esperava na madrugada. Ele disse a ela:

- Te amo assim, por chatice. Aguardo ansiosamente seu julgamento de amanhã.
- Faz o que quiser… Só não deixa de ser chato, chato.

E tudo desmoronou de novo. A ruína da adolescência voltou, e mais alguns anos de madrugada foram necessários. Ela estava grávida.