Sobre a dor
Pinturas rupestres. Faziam assim antigamente para se expressar. São traços feios e valorizados pela idade. Falam muito de uma época que não se tem notícia. Anonimato terrível da verdade. Os habitantes do presente olham fixamente para elas tentando achar uma resposta.
Como num quarto. Ele estava deitado numa cama. Perto, uma janela era escondida por uma cortina verde pequena, com uma fresta para o sol passar. As paredes brancas não o chamaram a atenção de primeira, tinha uma estante com duas toy arts interessantes e um bocado de CDs. Tudo em segundo plano. Ele estava olhando para o teto. A infiltração de uma chuva passada desenhou vários símbolos sem lógica aparente, mas como as pinturas rupestres existem, ele num momento de sagacidade inferiu: “É a natureza tentando se comunicar comigo”.
Talvez. O passado também era anônimo, não fazia ideia de que lugar era aquele. Prestou atenção no teto porque desprezava o desespero, pouco adiantaria agir como um maluco numa situação dessas. Lembrou dos amigos que lhe contaram experiências parecidas. Era a sua vez.
Ainda vestia a camiseta, muito amarrotada, claro. Daí pra baixo, mais nada. Por ser uma cama de casal, imaginou alguém do seu lado. Devia existir vida além do travesseiros jogados, que impediam a visão da lateral direita. Depois de levantar descobriu a solidão naquele quarto quente. Passou a mão no rosto e bocejou. Alguém entrou no quarto logo em seguida.
- Dormiu mais que eu.
- Você tem mais discos que eu, precisa de mais tempo. Eu sou paciente. Mas então, deve gostar de café, fez café?
Ela ensaiou um sorriso bobo e disse que sim. O convite até a sala de estar foi tão agradável que ele esqueceu de por as calças, deixou as no mesmo lugar, jogadas numa cadeira derrubada no chão.
De longe, a mesa parecia grandinha. De perto você desejava que ela fosse maior. Havia alguns copos sujos, um jornal velho e uma xícara pela metade. Logo ela lhe arrumou uma também, deixou ele se servir. A garrafa térmica disputava espaço com um vaso de planta, planta de plástico. Na hora em que foi pegar o café percebeu um “radiohead” escrito no vaso. Após a primeira injeção de cafeína, comentou:
- Temos uma fã aqui.
- Ah, quinze anos.
- Não faz tanto tempo assim, né.
- Poxa! Obrigada! Mas sou velha.
- Vinte e três?
- Não exagera.
Foi a vez dela tomar café. Ao contrário dele, ela não virou a xícara com pressa, mas também preferiu sem açúcar. Ela tem um rosto tão branco que deve liberar flocos do adoçante rejeitado em pro da bebida. Longos cabelos curtos, negros e ondulados. Fica linda de óculos. Se acha um pouco gorda, mas isso é história batida. Ele nem percebeu. Usava algo entre um vestido e uma camisola de cor branca, como a sua pela. Basicamente semi nua, em forma apaixonante de acordar. Ela encarou a mão dele segurando a xícara, percebeu uma cor estranha:
- Pinta a unha?
- Não, tirou isso donde?
- Ela tá estranha, sei lá, vai ver quer dizer alguma coisa.
Ergueu a mão, olhou profundamente e mostrou a palma para ela:
- O futuro fica na palma, não dos dedos.
- Acho que você desconfia que eu sei disso, não?
- Claro.
- Então não implique com a minha vontade de ler o destino.
- Se eu puder levar o destino na minha mão não tem problema, sigo bem.
- Mas ele foge do seu controle, não tá na sua mão.
- Bem sei. Vim parar aqui, mas estou perdido.
- Eu quis vir pra cá. Está só.
- Vou morrer assim? O que os astros te sugerem?
Agora ela sorriu de verdade.
- Com o tempo a gente descobre, nós.
- Não vai dar. Adorei te conhecer, e gostaria muito de lembrar o seu nome.
- Eu posso te contar.
- Já me contou.
- Sim, porém você não lembra.
- Eu esqueci. Se isso aconteceu, não posso fazer nada. O esquecimento vem para aliviar a dor, cria desapego dos prazeres e das tentativas falhas da imaginação. O que vejo por você é tão bonito que talvez nunca conseguiria esquecer, e se já o fiz, é melhor partir sem maiores danos.
- Deu sorte que eu não estou no período fértil.
- Se for azar, eu não lembro.
O debate falado acabou alí. Segui-se por dez minutos de silêncio, olhares fixos, carícias e beliscões trocadas debaixo da mesa (nada muito intimo), incontáveis suspiros e sete xícaras cheias. A garrafa acabou. Ele levantou, foi ao quarto e se vestiu. Quando voltou foi interrompido por um abraço dela, sem beijos. Três passos até a porta, lá ela declarou:
- Eu posso te chamar pelo seu nome.
- Pode, mas eu não conto.
- Eu sei.
- Guarde contigo, pois meu sonho é esquecer. Se sonhei errado ao menos tem alguém para me despertar.
Acenou e seguiu pela direita. Direita o lembra direito, por isso a direção. Era 35% dislexo, não sabia se estava certo ou errado na direção. Forjou uma certeza que nada superou, mas viva com vontade de voltar atrás.