bolinha de gude

calhamaço do ócio

Um rolê

Eu pareço um aluno de teatro nos meus diálogos imaginários. Repito sempre as mesmas frases, com outras caras e entonações. Me preocupo tanto em não transparecer nada, mas o desespero toma conta e corro para o primeiro abrigo. A denúncia toda o mundo e eu sigo esquecendo. Ou pelo menos na tentativa.

Tentar possui mais de um significado. Tentar “alguém” eu gosto. Faço direito quando não percebo - daí raramente usufruo. Mas quando tento, ah, fica na tentativa mesmo. O fluxo de ansiedade no meu sangue deve explicar uma parcela dos poucos episódios. Ruim em quantidade, manifestados em alta potência.

Recuso a capacidade de pensar numericamente. Tenho mais o que fazer. Adotar medidas planas no campo afetivo seria meu atestado de óbito. Eu, como moderador da realidade do utópico, vou sempre pelo caminho mais longo, às vezes ele coincide com o mais rápido, mas é longo. 

Atravessar a rua duas vezes, meio sem querer, mas com a falta de atenção digna do caminhante ausente. Aquele que precisa de um tempo para pensar com a trilha sonora dos pés batendo na calçada. A vivência o ensina a não pisar em coisa errada, mas os caminhos são os mais criativos possíveis. Engraçado, imagina-se tanto onde quer chegar, mas até lá é uma volta imensa e desnecessária.

A vontade de ficar por alí aciona um tipo de conformismo imaginário, justificado pelo do início. Não o medo de iniciar - estou andando - e sim do que pode acontecer no decorrer. Isso não influir no resto, então toda ruela convidativa é um atalho para o próximo passo. 

O storyboard avança na cabeça. Declarações são feitas e ações ‘inesperadas’ planejadas enquanto os passos alternam de velocidade e direção. Eles seguem um piloto automático afetivo, que ora leva para casa, ora leva para o possível fim. Talvez seja uma generosidade esse guia não se manifestar quando um evento efetivo está marcado, mas é na falta dele que eu vibro a dependência.

Por que chega a hora na qual o “Oi, tudo bem” dói a sensação da oportunidade perdida. Os pés não apontam para um fim, só seguem o suposto caminho correto. Pouco é dito e o inesperado fica ao acaso dos piores dias. Certeza é uma pergunta que esqueceram de responder, portanto, o jogo sempre parece dar uma chance. É o que acontece quando não se está perdido.

Aprendi que não preciso de um guia para andar num caminho próprio. E a prova disso é que ninguém me ensinou, apareceu, e não foi um deus. Não como os biscoitos da sorte, nem leio o horóscopo, só estava certo o tempo todo que fiz a marionete sair do espelho e encarar a realidade. 

No tempo nublado as nuvens são egoístas e olham o céu sozinhas. Só assim prestam atenção nelas, tive de subir para perceber. Daqui a pouco vou cair.

Ou seja esconder volta