As coisas não vão bem para quem acredita
Abrir um saco de salgadinhos foi a primeira surpresa da vida. Quando criança pouco se percebe os apelos, mas eles são impactantes nas ações infantis. Os pais sabem como irritante são os pedidos, não deixa de ser curioso esse comportamento no supermercado. Querem os embalados menos pelo sabor, e mais pela “surpresa”.
Os pequenos desconfiam do brinde, são inteligentes o suficiente para relacionar a ilustração com o conteúdo. E, ao contrário de muito velho, não tem vergonha em perguntar se a dúvida tiver. Estampam um sorriso quando conseguem, e abrem como o instinto manda. Guiados pela pressa, cortando o pacote ao meio, ou temerosos por uma bronca, não querem sujar o chão, e realizam o movimento sugerido na embalagem.
É tão bonito quanto babaca observar a cena dos mais calmos - minoria absoluta da classe. Sentados, eles puxam as extremidades com calma, veem a cola se perder entre os dois lados, agora separados; arregalam o olho para dentro do pacote, e, finalmente, metem a mão cheia de vitaminas até o fundo. Os mais protocolares arriscam uma mordida, os honestos desprezam e se encarregam de libertar o desconhecido.
E lá está ele com seu novo brinquedo. A vida é curta e os desejos também, não dura muito a empolgação. O brinde geralmente some da mesma forma que apareceu. Sina.
Alguns pais se portam com raiva diante disso. Ora, porque comprar se o alimento não é digerido, e o brinquedo nunca agrada? Eles perguntam. Fazem a pergunta errada, e em hora errada.
Em certas horas do dia, quando você pode se dar ao luxo de um desperdício de 3 reais, preste atenção na criança encarando o saco de salgadinhos. Ela não ama a Elma Chips como quase-ativistas adolescentes fãs de Doritos, talvez ela nem saiba ler direito, ela não sabe quem é Adorno, nem a Industria Cultural. Ela é suscetível a estímulos, assim como você. E, naquele momento, ela só quer provar o desconhecido.
Ela só quer o que não é certo, tentar uma experiência nova. Ignora o preenchimento do pacote, anseia o brinde. Tem de ser muito maduro para poder passar batido pelo fácil e saboroso na hora do querer e se entregar ao bonito ainda inédito.
As crianças acreditam. Imaginam o que existe dentro, perdido no meio de um monte de coisa gostosa, meros acessórios de sufocamento da surpresa. Os pais, teimosos, dizem não valer a pena, ela é recriminada, sua fé contestada, mas às vezes atinge a meta.
Com o objeto em mãos, acaba-se tudo. Olham, elogiam, esquecem. Processo natural, passaram, tentaram. Muito por pressão adulta, desacreditaram e, por conseguinte, desmereceram o que veio. Vão brincar com os ídolos antigos, guardados na caixa. Deixam o biscoito para o(a) irmã(o) mais velho - secretamente, um grande interessado.
O brinde pode se perder, e não corresponder é comum. Infeliz é deixar o brinde acabar e dele viver sem. A vida precisa de brindes que levem para o fora do comum. Por comemoração ou mérito. Desse caminho foge-se do normal e toma o rumo do extraordinário.
Os pastores mentais da maioria esboçam um misto de medo e discordância. E por mais crenças inventadas que eles possam ter, lá no fundo guardam um tipo de temor. Levado para a educação sagrada, em que é ditada a função inútil do ato mágico do cotidiano. Seja em uma criança, ou em um adulto.
Todo ano renovam votos falsos de fé furada. Não pela intenção, mas com uma ligação irregular com as ideias proclamadas internamente. Inserem sem perceber uma lógica em que quem acredita não parece acreditar, quando quem não acredita guarda para si uma fé inabalável por qualquer acreditação.
De brindes ou fatos, a felicidade parece morar onde a expectativa floresce o desejo mesmo com o objeto às claras. Acredite ou não.