Excursão
Passear nas ruas do centro em um domingo incita uma revolução pessoal. Do ônibus, avista-se pela janela uma infinidade de letreiros decadentes. Sem todas as letras do estabelecimentos, com o telefone de 7 digitos e com um espaço reservado para a sujeira. São bem comuns, e todos eles personagens do centro.
Aqueles letreiros um dia foram grandiosos. Vistosos e reconhecíveis para a população que frequentava a área. Bem menos gente que hoje, com bem menos atrativos. Os saudosistas podem falar que tinha mais charme. Certo era que os letreiros estavam intactos e atualizados, potentes e carregavam uma marca. Hoje eles ainda fazem, mas parecem ter uma carteira de aposentadoria ao seu lado, garantindo ao espectador uma licença por ser velho.
De vez em quando, passo por um desses e encho os olhos de lágrimas. As letras que caíram no chão e o telefone desatualizado não combinam com a loja aberta. É um sinal claro da decadência e seus motivos. O mundo mudou pra caramba, eu nem existia na época que a maioria deles fora aberto. Nem todo mundo se acostuma, dá uma pena olhar para os funcionários idosos (prováveis donos) do outro lado do balcão, sem muito para fazer. Esperando dar seis horas da tarde e fechar. Torcendo para que algum maluco brote da multidão e dê uma atenção necessária. Tenho pena e não consigo ignorar, dependendo do dia eu faço esse papel, de ir ver o que há. Quando vejo eles fechados, aos domingos, o sofrimento é ainda maior, nunca sei se vão abrir de novo. Carrego um afeto representado nas vias tradicionais como característico da clientela, meu caso é diferente, respeito a localização e a vaidade do século passado, não quero perder isso. Ter esse parecer é o melhor que faço.
Ônibus no domingo é uma coisa triste. Ninguém queria trabalhar nele nesse dia maldito, o motorista não esboça raiva, parece pensativo. Triste, talvez. Não digo triste porque desconfio da tristeza de todos e felicidade raramente é prática minha, só julgo sem conhecer. Sem perceber, procuro sofrer mais. E não tem lugar mais triste que a Avenida Rio Branco, é o lugar mais solitário da cidade aos domingos. O ônibus passa correndo, as imagens se confundem, a decadência localizada solta aos olhos. Eu solto no primeiro ponto depois da Presidente Vargas e vou andar sozinho. Cruel.
Os sinais choram em três cores na minha frente. Expressam seus desejos de maneira objetiva, mas são ofuscados pelo sol e falta de automotores. Eu, na calçada, não devo pertencer ao público alvo deles, mas toda vez que atravesso a rua dou uma olhada. Algum carioca se importa com eles, mesmo com tudo deserto. Acho que eles se importam com isso. Bem ou mal, eles sempre estão lá.
Agências bancárias vazias são iguais as cheias, só que com menos estresse. Não podem ser relacionada com bons pensamentos. Não gosto e não me importo. Se um dia o caixa eletrônico vier reclamar comigo, eu, no mínimo, vou processar a entidade dona dele por mau funcionamento do serviço. Nunca irei elogiar, porque ele é lento e tem taxas elevadas. Ficamos calados, mas a tela de LCD dele pode ver o meu desespero com os números, um prazer que eu nunca vou ter. Porque nada aflige ele, insensível a minha crise financeira, que podia liberar um a mais de vez em quando. É por isso que no caminho até a Rua do Ouvidor eu só olho pro chão, o chão mastiga uma quantidade invejável de chicletes para uma criança de cinco anos. Eu tenho dezoito, não curto chicletes assim, mas sou solidário a causa dele.
O caminho na Rua do Ouvidor é longo. Numa medida convencional, em metro, é um dos menores, mas eu não penso assim. A largura da rua diminui substancialmente de tamanho, tem uma livraria enorme que eu gosto de entrar quando vendedores não me dão medo, e várias lojas de sucos ruins. Mas é bonitinha, eu curto. Encontro uns pivetes com produtos milagrosos para limpar meu tênis sujo, um dia eu parei e atendi um, disse estar sem trocado, ele ignorou e passou a espuma no Adidas (pé esquerdo, o direito está furado). Depois veio me pedir um troco, eu avisei, não tinha. Vida segue. Tem sempre um tumulto na meiola da rua, gente lenta quando você está com pressa ou rápidos demais para o pouco espaço. E até alguns motoristas inconvenientes que buzinam, um saco. Lembro do Armazém do Café, um lugar memorável e caro (disso eu prefiro não lembrar).
Chego na Primeiro de Março e não dialogo com os sinais de trânsito, já o fiz na Rio Branco· Gosto de permanecer na calçada e passar no final da Buenos Aires. Alí tinha uma lanchonete furreca, mas bacana. Eles serviam laranjada no copo de papel, funcionavam com uns fichinhas idênticas as do meu colégio primário. Fui feliz enquanto era assim, lembro de uma vez que gastei cinco reais num hamburguer e suco (grande) servido num copo de papel, como antigamente. Pago mais que isso em muito croissant metido a bom nas cafeterias que frequento, a maioria não presta. Faz seis meses ou mais que a lanchonete passou por uma reforma, o dono mudou, tudo mudou. Nunca mais entrei, passo em frente para olhar com desprezo. Agora parece uma pastelaria chinesa cor de laranja. Atravesso a rua fora do sinal e vou pro CCBB.
Teoricamente o meu objetivo mora alí. Mentira, o que eu queria era passar pelo caminho. Dependendo da situação, nem subo as escadas para ver a exposição. Fico feliz na pilastra, processando o caminho que cumpri e lembrando de textos e paixões antigas. Para chegar na pilastra certa, eu entro naquela porta de vidro, passo direto e me posiciono na terceira à esquerda. Costuma estar vazia. Certos dias, o segurança sente pena da minha solidão e fica plantado próximo a ela, não adianta muito, foge com tristeza do meu desprezo pela sua imagem. Ele deve me ver como um louco, mas aquilo lá é um exílio pessoal, faço tudo certo para isso. Noto o mundo em textos longos e cansativos. A maioria é meu, não compartilho. São semelhantes às minhas atitudes e diálogos invisíveis traçados para concretizar-los, fora do mapa convencional das pessoas.
Eu lembro de tudo que se passa lá. Algumas coisas eu arranco os cabelos e digo que esqueço, mas desconsidere o drama e me entenda se eu quiser omitir algum detalhe disso tudo. Sou um personagem exclusivo desse enredo, fiquei triste nas vezes que tentei burlar essa regra. Acabo triste por perceber que com alguém a mais nessa história as minhas linhas servem de ilustração, não de roteiro. Minhas atitudes corroboram os soluços da minha insensatez e eu deixo para depois os perigos do bem estar. Minha missão na Terra é encontrar alguém que fique bem aqui. Tentativa erro, não tenho muita sorte e o azar dá carona para a paz em meio a uma agitação.
Essa fobia ganha opacidade quando eu saio pela mesma porta que entrei. Faço o caminho de volta e tudo volta a corroer em cima de mim. Não expresso pânico e procuro um jeito de voltar pra casa. As luzes me embriagam num choro silencioso, incessante até o retorno, impreciso, que quer ser desnecessário. Ciente do seu fim pelos trágicos meios de começar.
Amanhã eu vou para uma feira cheia de agitações do século passado, onde eu possa esbarrar com alguém e me criar no seu diálogo calmo com o tumulto leve e clássico ao fundo. Ela não sabe, mas eu escondo um mapa no sapato e só ando de tênis. Fosse eu feliz, ela descobriria antes de mim outro, guardado dentro do par da sapatilha dela.