Fragmento
- Eu não gosto.
- Hã?! De que?
- Esquece.
- Esqueço, sim, mas de que?
- Ah, porra. Sabe bem que gosto de falar sozinho.
- Qual o motivo?
- Ódio dos psicanalistas amadores.
- Quer que eu cite Freud? Hahaha.
Não tinha se zangado de verdade, gostava de ser irritante. Abriu um sorriso e virou para a janela. A cortina encobria a claridade, mas passava alguma coisa que parecia luz. As lâmpadas florescentes costumeiramente iluminaram a sua vida. Se fosse um poeta, nunca poderia falar do sol de cada dia, de como isso embeleza a vida e correr o risco de cair na pieguice do fugere urben. Não, definitivamente não.
No auge dos seus longos anos vividos, ele era tido como novo, mas não revelava a idade. Não sabe andar de bicicleta, mas tinha uma moto bem bonita. Eu sei que isso parece contraditório, mas esse é um depoimento de amigo, ele vive dizendo isso. E cada um entende das suas contradições, até gosto disso nas pessoas. Ele dizia o contrário, às vezes me incomodava a inflexibilidade demonstrada. Poderia ser mais feliz.
No que busca, atinge. Suas metas são efêmeras pela facilidade em que são resolvidas. Algumas são bem simples - nunca vi alguém para gostar tanto de comer pão no boteco e amassar o papel com a mão esquerda, parece que ganha milhões por isso -, outras nem tanto, envolvem uma lógica abstrata demais para o pensamento coletivo. O grupo acaba enxergando nela uma ação individual, mas eu sei, secretamente, o quão coletivo a individualidade dele pode ser.
- Sua mãe te ligou. - disse eu.
- E você falou com ela? Por quê?
- Você parece assustado. Foi um diálogo normal, não disse nada que um colega de trabalho não diria. Perguntei da família, do dia dela. Mas ela só falou de ti, aí eu cortei o assunto.
- Me odeia, né.
- Quem? Eu ou sua mãe
(esboça um sorriso irônico, nessas horas desconfio que ele esconde um segredo, tão obscuro que o máximo a dizer seja esse sorriso insuportável)
-Você.
- Ah, eu não. Você não deixaria, não deixa nada entrar aí. Nem ódio. Quer passar em branco para as pessoas, mas eu sou irritante.
Manias, manias, eu curto. Porém não esquento com elas, desisti faz um tempo. O Marcelo, esse chato, quer fazer uma coisa diferente, que eu acho bacana. Mas preciso do convencional, parei de procurar ambição nas pessoas, procuro só prazer. Isso não me faz um usurpador da moral, como ele me acusou outro dia, me faz um cara livre, sem pressão, que frequenta o motel sem medo.
- Sua mãe não precisa te ligar, mora com você…
- Escuta, Marcelo, se eu moro com os meus pais, isso é problema meu. Foda-se os meus vinte e oito anos, gosto e vivo vem assim. Botafogo é um lugar lindo para pessoas que não chegam lá completamente, gosto dessa coisa meio loser.
- Lá vem você com esses papos absurdos.
- Botafogo tem rua lindas, casarões com árvores enormes, mas as calçadas são todas cagadas.
- Hahahahahahahaha. Não tem mais ninguém para contar isso? Tem que me desconcentrar com isso?
- Você, que é meu amigo.
Ele não esperava essa resposta. Sabia que ficaria meio congelado, era normal esperar isso dele. Não me disse uma palavra, pegou suas coisas e levou para a moto. Seguiu para uma reunião em algum canto da cidade, dessa vez preferiu não dar mais esclarecimentos. Tinha certeza que era um lugar longe, e sempre bate na cabeça um roteiro cinematográfico do tipo “ele vai morrer, virar um anjo e saber da nossa amizade”. Ridículo, diverte me ainda mais pensar nisso e ver a pessoa depois.
Esses devaneios são símbolos do valor que a gente dá para as pessoas. Mesmo aquelas que não ligam muito para isso. Compreendo e admiro ainda mais. Sabem viver do seu modo, e não é todo mundo que tem a felicidade como objetivo de vida. Isso é algo a se notar.
As pessoas misteriosas sempre exerceram um fascínio em mim. Se fizesse uma faculdade, faria psicologia. Hoje, não faço mais nada. Fico trabalhando com a minha rotina de funcionário público. Maravilha, sabe, salário certo, vidinha boa. Essa é minha contradição, pois odeio pessoas medíocres.
Vou me contradizer ainda mais, não vejo nisso uma contradição. Me basta poder ficar em cima do viaduto ignorando os carros para contemplar o cristo coberto por nuvens num dia feio do outono. Já vi vários acidentes, um dia chega o meu. É bom que estarei perto, vou voando para a minha vista. Sumirei em espírito das faces conhecidas, não quero ver a minha mãe descobrir as minhas amantes. Longe disso, prevejo a tristeza dela.
Minha amizade, mesmo que, de um ponto de vista cruel, fictícia, serve para quebrar essa barreira. Ele seria um filho melhor do que eu sou. Faria as coisas direito, daria uma nora legal. Eu sou alguém que começa a seguir as pessoas e depois para, sem avisar. Um dia, em outro caminho, encontro as de novo e sempre sou perguntado do que aconteceu. Nada, só a vida, entenda, beijos.
Quem fala sozinho vive sem a prisão do corpo. Isso eu não tenho. Prefiro não ver as grades dormindo no canto escuro, nem grito por alguém para me libertar. Desejo me acabar por aí.
Agora que está ciente disso, deixo um apelo: não me mande mensagens para cobrar.