Antes do fim
Conteudismo aplicado nas avaliações diárias insere metas fictícias na vida das pessoas. Saber que não serei julgado por vontade ou aplicação, satisfação ou talento, corrói a ponta do cigarro em foco na minha vista.
Eu, bem sei, nunca fumei aquele. Fumei de outro tipo, mas usual, talvez pior. A imagem me atraia, parecia bom, e a verdade é que não curti o material. Espero outra chance para uma experiência diferente. Acabo colocando a culpa em coisas como essa, não fumar, por eu sempre estar no papel de hoje. Encostado na parede rindo de tudo, irrelevante para a direção da prosa.
Faz um pouco de calor. Eu não me importo, olho pro céu e o sol sumiu. Deve ser de noite, embora não aparente, eu estou sóbrio. Um amigo muito bêbado me disse que eu nunca fico louco, eu sempre paro antes de ficar louco. Portanto evito a euforia, diga se isso não é loucura.
Os copos vão se juntando em cima da mesa. Quem figura ao redor parece se mover com a quantidade e o conteúdo tencionado. Eu, por uma quase obrigação, viro um copo de Coca. Está ruim, meu alterego diz que nunca foi bom. Posso até concordar com ele, que é um cara inteligente, e eu nem preciso chamar de eu lírico para isso.
A luz ilumina o salão todo. Mas eu só olho para baixo. Constatação: Ninguém mantém os tênis limpos. Ah, não é um ou outro, o que estraga as pessoas é a vida! Ficar estragado não significa fora de uso ou ruim. Ofende a mim esse pragmatismo social do bonito. Mas também quero ser bonito, fique registrado.
O diálogo continua ao meu lado, permaneço impassivo. Acho referências nos meus gestos depois de fazer-los. Gosto de dizer isso para que fique claro como o acaso trabalha para mim, eu não penso tanto como as pessoas que me cercam. Eu admiro elas por isso, capacidade de formular tanto, dizer tanto. Gosto e gostaria de assim ficar. Em outra vida, talvez. Esqueci de preencher essa opção no formulário, ainda não encontrei que pudesse rever. Talvez não queria. Vou te introduzir na conversa.
- Cara, ela me deu um fora - disse um amigo.
- Escrota? - disse eu.
- Não, cara, ELA me deu um fora. Logo ELA. Você percebe quando ela me deu um fora, ela. Você sabe dela. Você me ouviu falando dela, e eu ouvi que “sua chance é zero”.
- Ela, cara, safada.
- Não, não é. Eu falei com ela, conversamos, ela é legal. Mas ela não quer. Mas agora eu posso adicionar ela no facebook. Negócio a longo prazo. Ela é muito gente fina, boa de papo. Gostei mesmo, foi legal, mas não quer nada.
- Então não foi ruim assim. Ela não te magoou muito.
- Quê? Eu falei que era ELA, meu amigo, ela. Aliás (se referindo a um outro amigo da mesa), tem o telefone daquelas?
Ponto final. Não duvido da dor sentida e foge da minha compreensão a capacidade deles mudarem de tópico. O problema existe, mas arranjar outros que se revertam em solução parece mais simples - para eles com certeza é. É por isso que são meu amigos. Tenho pena deles por aturar a minha caretice emburrada e carência de paixão.
Tem uma coisa muito bonita nisso tudo. Eu sei direito que sentado numa mesa, bêbados, com calor, e a discutir os prós e contras da vida a gente termina se entendo melhor, cada um do seu jeito. Falamos das mesmas coisas todas as vezes que nos encontramos, muda-se os nomes. Digo, às vezes muda os nomes. Há quem sempre mude, há quem se apegue mas seja capaz de superar, e tem eu, com minhas paixões impossíveis - nem me refiro a Jane Birkin aqui.
Eu me sinto feliz. Muito provavelmente depois eu vou entristecer, não pode eles, mas pela estagnação em que sempre me coloco. Juram que não, mas eu me sinto uma pessoa super estagnada. Não conformista, sempre acho que posso estar na frente. O que eu tenho nunca é capaz, tenho o sentimento que diante da minha posição eu deveria estar lá e aqui ao mesmo tempo. Aqui com meus amigos e alegre, lá bem sucedido e feliz.
Se onipresença fosse lenda, não seria palavra. Não é o estar físico que me impulsiona para a vida toda, e sim um psico-emocional maior. Fator predileto por mim para dar aos outros. Poucas tentativas são convertidas, as que ficam crescem e entendem.
De certo eu dou tanto valor a isso que me esqueço do físico. Também quero, não pense o contrário. Adoro. Sou humano e não vejo isso como uma coisa ruim. Isso de ser humano é bem divertido - ninguém vive em tanta contradição como nós, é delicioso - e isso de conhecer alguém e confiar a intimidade de um a outro é mais olímpico ainda.
Deixei de fazer muita coisa que queria. Me arrependo, me arrebento. Mas não me importo de verdade, tem muito mais o que fazer. E se deixei para trás isso, tão bonito e importante, quer que seja, foi para um bem maior de responsabilidade com a minha personalidade. Tão abusada e mexida ferozmente pela minha cabeça incerta das coisas da vida.
Eu paro, sumo, o papo continua de um ponto diferente. O obstinado sexo oposto toma a roda rápido, mas a fúria acumulada se esvai e os traços de intelectualidade fluem. Gosto disso nos meus amigos. Eu, como observador, acho que as pessoas tendem a deixar isso de lado no cotidiano. Principalmente ao tratar com eles, mas não é. Comigo é diferente, mas eles mantém um limiar bonito entre o simples e o profundo. São capazes de profanar o cotidiano engessado dentro de suas estruturas, passam despercebidos do olho externo para depois serem suscitados por lembranças fortes. Obrigo-me a notar a qualidade na hora para que ela não se perca depois.
Eles não pretendem parecer com alguma coisa como muita gente, e como eu me permito pretender. Tem suas pretensões, factíveis, bonitas, e totalmente diferentes das minhas. O “who to follow” do Twitter não me indicaria eles, mas eu dei a sorte de encontrar.
Continuam conversando, acho que não notam a minha ausência, mas fazem. E me interrompem, ora gosto, ora não gosto. Depende. Eu sempre gosto, mas faz parte de mim uma implicância com o que vem dos outros. A mão invisível que regula o meu mercado pessoal não é desgovernada, atente pelas minhas emoções. Tá, pode ser pior.
Com meus amigos eu sei que posso exagerar. Eu sei que posso confiar a ausências, porque eles sabem do meu retorno breve. Sinto saudades a toda hora deles, até nas horas em que estamos diante um do outro. Pois sentir saudades só quando se separa é um crime com a cordialidade e querência do convívio, é artigo em extinção, queira o como se fosse findar.
Em cada momento ficamos antes do fim. E assim permaneceremos, vendo o fim não se acabar.