bolinha de gude

calhamaço do ócio

Domesticação

São muitas pessoas. Pessoas que ficam alegres, pessoas que gostam de pessoas, pessoas insuportáveis, pessoas que mudam com o tempo, pessoas amadas, pessoas que pedem para ficar só, pessoas que acabam só, pessoas que choram e pessoas que choram por não chorar. Pensar assim congestiona.

Por mais que o foco seja a pessoa, a visão de um coletivo sempre se sobressai. Flui a insegurança de segregar, os pontos em comum são elevados para uma menor divisão dos grupos. Mesmo quando a afinidade tende a zero a peça única é revestida de preconceitos emocionais, e acaba em outro grupo.

Não é mentira ou eufemismo. São truques criados para a domesticação do social. O fator da convivência desafia as preferências pessoais em prol de um benefício maior. O sacrifício sacramenta-se como obrigação social, mas sem valor compulsório. As ações se desenvolvem com a imagem do prazer e com o custo da dor.

O conceito de que o convívio é o melhor caminho leva a minoria da minoria, que não precisa disso, a se arriscar em libertinagens estranhas ao hábito. Irreconciliável com o que se sente, e prejudicial com o presente, o indivíduo abre as portas para a carência e tem aí o seu maior erro.

Sem definir bem se segue uma suposta predestinação, ou se compra uma suposta solução teocrática, ele decide que precisa de alguém. A imagem parecida, o espelho no sexo oposto para a chave do entendimento. Para que juntos, fiquem bem, um com os problemas do outro.

Com isso em prática, ele esquece da cruel imposição que pretende fazer na escolha de quem só é semelhante. Ninguém pensa igual. Mas para não proclamar a guerra, o individual não fica segregado do resto. Ele quer alguém com ele, e lá coloca ela, mesmo que ela não pertença.

O estrago do rompimento eleva o desespero a níveis maiores. E a predestinação de achar alguém-espelho para abraçar perde a alguém. A própria imagem desacreditada revela a unica companhia deixada pela desesperança.

Algumas pessoas não sabem. Mas são as pessoas que se juntam por valorizar o que há de comum, e desmerecem os atritos, constroem juntas a felicidade sem muito se importar com um item para busca ou imagem congruente. Pois sabem que juntos farão uma ainda mais bonita.

Ou seja juntar mais de um só vida