Pra parecer sério
Abarcando num enjoo programado, a insonia é sempre desculpa para os males e um eventual mal humor. Por ser um drama contemporâneo, todos entendem e poucos questionam. Chega a parecer uma hipocrisia geral o não questionamento dessa insônia plástica das noites mal gastas. Só há de dizer que isso basta, e disso se vive para esconder a angustia.
Num erro constante, justifica-se o estado sentimental com um distúrbio de rotina. Isso é tão fácil de perceber quanto de repreender, difícil detectar um que tenha escapado da armadilha sedutora. Tratando-se das noites afáveis e confortadoras então, o “é melhor deixar quieto e observar” prevalece.
Perto de enganar mais um com esse papo, ele se alongou numa explicação contrária. O dia era chuvoso, mas no escritório não existia janela e nem se ouvia o barulho da chuva.
- Parece mal, o que aconteceu?
- Dormi muito bem hoje, não tô acostumado.
Objetivo e ríspido, a frase lida normalmente sugere uma ironia que a expressão facial dele desmentiu. Grosseria gratuita? Talvez, mas isso contra uma pessoa comunicativa é arma-la de papo enfadonho para mais de hora, e isso ninguém quer às sete e meia da manhã.
- Parece que não dormiu nada, seu chato.
- Gentileza sua, meus melhores dias de insonia passaram. E hoje não tenho problemas identificáveis, consigo sonhar mas não lembro de nada. Antidepressivo dá sono, e eu não quero sonhar mais. Sacou?
- Seu papo está muito chato hoje, vou trabalhar.
Golpe de sorte ou peculiaridade do ouvinte? Não é tão fácil se livrar de uma pessoa irritante assim apenas quebrando o senso e propondo assuntos sérios logo na manhã, geralmente elas insistem para fofocar mais. Ele conseguiu uma proeza: além de despachar a besta, muniu a de uma fofoca falsa que rapidamente seria espalhada pelo ambiente. E como ela não entendeu nada, mais curioso fica para saber qual a simplificação que a sua falta de sono recheada de excesso vai receber.
Os dedos estalam para fazer barulho. Passa a mão no cabelo, põe a mão próxima a boca como se estivesse fumando um cigarro. O charme na cabeça ignora quão sacal a situação é. Você ganha dinheiro para esperar um email e responder ele com a visão da pessoa que te paga. Você perde sono para esperar alguém que tá dormindo e vai te dar uma desculpa.
Como o mercado financeiro, o emocional sempre dá volta. Uma hora se compra, outra se consume; uma hora se espera, na outra se esnoba. O ciclo que requer paciência é sempre mais penoso, e a auto-piedade pede para não ter fim o drama. Nunca é tão ruim quanto a gente acha que é.
De comum, sempre se é abordado por pessoas alopradas quando aparentamos instabilidade:
- Cara, é sério, precisamos conversar. Tem um minuto?
- Sim, alguns deles. Falaí.
- Vamos ali pra salinha.
A salinha fica a dez passos largos, quinze preguiçosos. Fácil acesso, e tem uma janela pra rua dalí. Ninguém se molha com a chuva, mas a blindagem deixa os pingos tocando percussão na janela. Ele acompanhou o ritmo batendo os dedos no braço do sofá.
- O que é?
- Uma amiga minha, que confio muito, me disse que você está viciado em drogas-
- Ei, que papo é esse?
- Escuta. É super sério, você precisa assumir isso e eu posso te ajudar. Com fé-
- Não me venha com essas. Mal entendimento seu, se drogar é comum, talvez eu até me drogue mesmo, mas nada é pior que esse papinho. Vai falar de deus agora?
- Eu só quero te ajudar.
- Não vai assim.
- É cocaína?
Com a cara estufada, quase deu um riso seco. Que inocência das pessoas caminharem logo pelo clichê, conheço várias pessoas bem drogadas que fogem desse tipo traçado na lógica popular. Acho até que me drogando vou ficar como eles, mas não me drogo.
Que saco. Qualquer angustia pede uma dose de mau humor pra parecer sério. Meia dúzia de palavras decoradas, isso não faz sentido nenhuma. É quando o vício, por babaca que seja, parece uma alternativa lúdica para não resolver os problemas que tem solução distante.
O dia sempre parecer mais curto que a madrugada, faltam motivos para acreditar nos hábitos comuns. Quando deixa de ser distúrbio para virar rotina começamos a nos entender.