Lugares próprios, divididos
- Mas você não quis dizer isso.
- Quem disse que não?
- Eu tô dizendo agora.
Ela virou para trás, como há dois meses, pegou a bolsa e deixou cair o CD que eu havia dado de presente, há dois meses. A capa de plástico parecia quebrada com a luz incidente, ele prestou atenção no plástico e não a viu sair. Foram horas chorando para a porta aberta, artifício da pressa dela, simbologia da esperança dele.
Não aconteceram brigas, nem desavenças. Ele não brochava, ela curtia o sexo. Um era reservado para o outro, havia assuntos em comum. Mas são nesses casos de ideias comuns que elas pensam demais, e eles agem como se tudo fosse natural.
A vida não parecia uma opção para ele. Ela estava decidida da mudança. E do peso de sua bolsa, peso imaginário e proposital. Era um anteparo do medo que projetava sobre o que acabara de fazer. Ela disse que ele não queria dizer, ele disse que a amava, ela não via provas na confiança. Desatou a relação por desatar.
Sozinho, ele perguntou a um amigo o que fazer. O celular respondeu alguma coisa que ele não conseguiu entender, a qualidade da ligação sempre foi ruim, o serviço era caro e ele estava cansado. Disse subitamente:
- Olha, cara, eu acredito nisso tudo, e de todas as coisas que ela disse eu só não concordo com uma. Ela disse que eu sou assim porque não me importo. Eu me importo tanto que tenho confiança, só se dá confiança quando se importa. Ela não percebeu isso e me largou aqui. Eu não sei o que fazer agora, não dá para pensar em qualquer coisa, não quero magoar ela, quero ficar com ela
- Não dá, vai pra outra. Puteiro a sua casa sempre foi, não entendo esse seu drama agora. Vai dizer que estava apaixonado?
- Seu filho da puta, não me venha com essa. Eu nunca fiz uma merda como essa que você faz quando bebe aquelas vodkas baratas -
- … que você compra.
Pronto. Foi o suficiente para ele desligar o telefonema e ir para a rua. Não para beber, foi procurar rastros do que deixou com ela por aí. Lembrou do cartão telefônico sem crédito deixado no banco da sorveteria. Ainda estava lá. Lembrou do pente que ele quebrou sem querer no primeiro encontro, ela fingiu que não percebeu, ele jogou no vão entre a árvore da praça e a latinha de lixo. Ainda estava lá.
E não acreditou quando lembrou do botão que escapuliu da sua calça, há dois meses, durante um passei próximo ao lago. Ele enterrou no lugar da roseira que deu de presente para ela. Ainda estava lá.
Tudo parecia eu seu devido lugar, menos ela, que já não habitava mais em seu coração. As pequenas coisas indicavam que algo estava errado alí. Mas ele sabia que era maior do que qualquer coisa pequena. E independente do que foi dito, para ele, ela ainda estava lá, sozinha, a sua espera.
Dormiu e acordou alí mesmo logo depois, há 20 minutos. Despertou com lágrimas e seguiu em frente. Trancou a chave do apartamento e olhou para a cama, ela não estava lá.
Encheu-se de alegria e entrou num outro sonho, sem data para terminar ou meses para contar. Até que ele perceba que não está lá.