Sesmaria especial às pessoas (1)
Inspirações são afáveis e dóceis. A fim de não ferir, a ideia surge como qualquer besteira mental; mero passatempo subversivo do dia-a-dia. Vide os inúmeros insights rotineiros, em formas de frases ou em possibilidades. Assim acontece porque uma proposta quando muito nova é feita sem pretensão, planejamento é segundo o segundo momento, a gênese é pura. O descaso reina soberano e muitas dessas ideias morrem por discriminação. As que surgem através de um querer estimulado por imagem ou pessoa são as postas em primeiro plano, o que é uma falsidade do sujeito.
A definição preferida das pessoas para inspiração geralmente é um motivo inventado para justificar o querer. Mobilizar pelo querer é uma linha bem restrita, que faz o agente restringir seus objetivos; há motivações maiores nesse mundo. Culturalmente, ao menos no Rio de Janeiro, querer é o dogma das mudanças, mas talvez esse não seja o caminho.
Exemplo: conceituar uma tese objetiva descobrir um significado, não terminar um texto - sua representação no plano da escrita. Uma lógica falsa sugere “quero descobrir”, mas para traçar o pensamento você não precisa querer, ele acontece. O querer subversivo cria uma dependência estranha — seu maior efeito colateral é a ansiedade. Ninguém percebe que é vitima de um ato tão simples, e induzido como fundamental, como o querer.
Querer não é ruim sempre. Acho até que querer é bom (mesmo que aqui abertamente eu critique o querer querer), mas desvirtuado de seu contexto, ele é incoerente. O exemplo mais cabal disso é que as coisas acontecem mesmo sem você querer; quem retruca ‘mas alguém quer’ faz uma associação errada tirada da mesma cartola que guia tudo pelo querer. Esse jogo de vários sujeitos conflitantes pela ambição é perverso, seu combustível é a falsa aplicação do querer.
Antes de querer, somos um organismo autônomo e criador. Mediar todos os processos criativos como filhos de um querer é super avaliar um fenômeno muitas vezes preguiçoso. Querer parece mais fácil do que fazer, mas ao perceber o tempo gasto com explicações querer-istas para o imaginário cotidiano, chega-se a conclusão que querer sozinho não é muito.
Solicito com o cérebro que o conclama, o querer não nega. Enche os olhos e traça os planos, é um imenso faz de conta que pode ser verdade. Mas só quem para de querer por um tempo efetiva o desejo. Querer é tão sacana que você para de querer quando atinge seu objetivo, mas ninguém se pergunta o que o querer estava fazendo alí antes. Ele era o ‘querer’, a motivação, mas nada disso, necessariamente, quer.
Explicações inexistentes abrangem quase tudo na vida. Mas se o querer não a quiser ouvir, o sujeito acha se impossibilita. Há uma outra dimensão além-querer.