bolinha de gude

calhamaço do ócio

Depósitos

- Se preocupe com coisas sérias.
- Isso é sério demais.
- Ambiente futil, desinformação intensa.

Ela virou o rosto pra janela. A linha um do metrô carioca realmente é debaixo da terra, ficou olhando pra escuridão, luzes de sinalização banais formam a pior vista da cidade. Nessas discussões ela costuma desligar o telefone na minha cara, presa num vagão não há muito o que fazer. Eu até gosto quando ela desliga o telefone, claro que o desgaste da relação é horrível, mas o telefone sempre me atrapalhou. Sempre da ruído, sempre dá problema, sempre esqueço de falar, sempre me excedo. Não mata a saudade. Desligar o telefone faz bem. Mas eu não suporto a ideia de ficar offline.

A gente não discutiu em tom alto, logo as pessoas do vagão (nem tão cheio assim) perderam um experimento social na viagem. Tinham mais o que fazer. Sentamos juntos num dos raros bancos verdes dispostos em pares da lateral, ela quis sentar na janela pra não enxergar coisa alguma; eu só queria sentar. Insanidade nunca me bateu para chamar isso de coisa séria, apenas um artifício mais confortável de viajar. Ficar em pé me dá claustrofobia.

Coisas sérias. O centro da cidade vivia no caos usual e eu tinha de resolver uns problemas burocráticos. Sempre procrastino, portanto na última hora vou resolver tudo e preciso de alguém para me ajudar. Um bloqueio me bate quando decido resolver sozinho. Ver trajeto de ônibus, itinerário de avião, reservar hotel. Essas coisas sérias deviam se resolver espontaneamente.

- Cê quer ir comigo? - fico na esperança do convite ao menos diminuir a chateação.
- E eu tenho tempo? Fica jogando essas coisas na minha cara pra quê?
- Mas não são coisas sérias, você disse. Não pesa.
- O tempo não é coisa séria?
- Não, os festivais.
- O que eu falei? Por que jogar na minha cara se eu não tenho como ir?
- Ia saber se não te contasse?
- Te contei sim, você que se esquece de tudo que eu falo.
- Ei, eu lembro. Por isso te convidei.
- Me convidou pela situação.
- É claro. Fosse uma completa desconhecida como há um ano não te convidaria.
- Besta. Fala isso porque eu tô chateada agora e quer me ver feliz, mas só me chateia mais porque eu não vou poder ir. Você sabe disso.
- Então a sua falsa felicidade é o meu objetivo no convite? Mero prazer te ver feliz por uma coisa que não pode acontecer, uma coisa que para você não é séria, uma coisa que nunca vai existir porque coisas sérias como o tempo não deixam. E tudo isso existe para eu tentar fazer você feliz? 
- É sério.
- Agora é? 
- Você nunca entende mesmo - me deu um sorriso pelo esforço.

O trem estagnado no meio de duas estações parou o tempo. Agora não tinha atraso, não tinha compromisso. A gente não trabalha e quer mais se divertir, tivemos nossas catástrofes alcoólicas na vida e arranjamos teóricos legais para estudar. Gostamos de dormir e frequentar um ao outro para depois confessar saudades dos amigos.  

Não estamos juntos a tanto tempo, nem temos histórias muito bonitas para contar. Vencer a insistência é o melhor que um faz para o outro que, no fundo, buscam motivos para voltar a serem desconhecidos um do outro. Essa história de ficar junto a vida inteira é piegas demais. Mentira.

Sete de outubro tá chegando, meu cartão virou e, se tudo der certo, não sou eu quem vai pagar a fatura. Não é coisa séria, não me levo a sério. Mas vou tentar acertar no presente dela.

Ou seja Cidades Fundamentalismo

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